Grandes bancos acumulam R$ 47 bilhões em provisões e acendem alerta para inadimplência

Por Samuel Bramwick 8 Min de leitura

Bancos reforçam proteção contra possíveis calotes no segundo trimestre de 2026, enquanto juros elevados e endividamento de famílias e empresas aumentam a cautela no mercado de crédito.

Os maiores bancos brasileiros aumentaram de forma expressiva as reservas destinadas a absorver eventuais perdas com empréstimos no segundo trimestre de 2026. Somadas, as provisões de Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil e BTG Pactual passaram de aproximadamente R$ 40 bilhões para R$ 47 bilhões em apenas um trimestre, segundo levantamento da Elos Ayta divulgado nesta quinta-feira, 20 de agosto. O avanço chama atenção porque ocorre mesmo diante da manutenção de resultados robustos no setor bancário. (Money Times)

No mesmo período, essas cinco instituições registraram cerca de R$ 30 bilhões em lucros, ante R$ 27 bilhões no mesmo intervalo do ano anterior, representando crescimento de 11,1%. Os números mostram que os grandes bancos continuam rentáveis, mas estão reservando uma parcela maior de recursos para enfrentar possíveis perdas com clientes que deixem de pagar seus compromissos. (Money Times)

Por que os bancos estão aumentando as provisões?

As provisões funcionam como uma espécie de colchão financeiro criado antecipadamente para cobrir potenciais perdas com operações de crédito. Quando os bancos identificam maior risco de inadimplência em suas carteiras, tendem a elevar essas reservas. O Bank of America observou que as provisões vêm crescendo em ritmo superior ao das próprias carteiras de empréstimos, aumentando o custo do risco das instituições. (Money Times)

O ambiente econômico ajuda a explicar essa postura mais defensiva. O endividamento das famílias atingiu 82% em julho, enquanto empresas também enfrentam dificuldades para administrar suas obrigações financeiras. Segundo os dados citados na análise, o número de companhias em recuperação judicial aumentou 65,8% entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período de 2026. No varejo, houve crescimento de 20,4% nas recuperações judiciais em 12 meses. (Money Times)

Outro indicador acompanhado pelo setor é a inadimplência empresarial. A taxa entre pessoas jurídicas, que estava em aproximadamente 1,5% em 2020, chegou a cerca de 4%, ampliando a preocupação com a capacidade de pagamento das companhias. Esse conjunto de fatores faz com que os bancos sejam mais seletivos na concessão de novos financiamentos.

Itaú e Bradesco mostram maior resistência

Entre os grandes bancos, Itaú e Bradesco apresentaram custo de risco relativamente mais estável, segundo a avaliação do Bank of America. A maior diversificação das carteiras de crédito ajuda as duas instituições a diluir riscos entre diferentes grupos de clientes e modalidades de financiamento. (Money Times)

O Itaú registrou lucro de R$ 12,4 bilhões no segundo trimestre, crescimento de 7,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Foi a 11ª alta consecutiva do lucro da instituição. A carteira de crédito avançou aproximadamente 10%, com destaque para modalidades consideradas de menor risco, incluindo crédito consignado e financiamento imobiliário. (Money Times)

Já o Bradesco alcançou lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões, avanço anual de 16,2%. O banco mantém uma estratégia mais seletiva para expansão do crédito, buscando recuperar rentabilidade sem aumentar excessivamente a exposição a operações consideradas mais arriscadas.

Santander e Banco do Brasil enfrentam maior pressão

O cenário foi mais desafiador para algumas instituições. O Santander apresentou lucro líquido gerencial de aproximadamente R$ 3 bilhões, queda de 17,6% na comparação anual. O retorno sobre o patrimônio, um dos principais indicadores de rentabilidade bancária, recuou para 12,5%. (Money Times)

O Banco do Brasil também permanece sob atenção devido à qualidade de determinados segmentos de sua carteira. Um dos pontos destacados na análise foi a inadimplência no cartão de crédito, que teria avançado de 7% para 15% em apenas um trimestre. A deterioração do crédito já não estaria concentrada exclusivamente em segmentos como o agronegócio, aumentando a atenção dos investidores sobre os próximos balanços. (Money Times)

Juros elevados aumentam o risco de calotes

O nível elevado dos juros continua sendo uma das principais fontes de pressão. Quanto maior o custo do dinheiro, maior tende a ser o peso das prestações e dos financiamentos sobre a renda das famílias e o caixa das empresas. Esse cenário pode aumentar atrasos e renegociações, além de reduzir a demanda por novas operações de crédito.

Dados analisados pelo Bank of America mostram que os empréstimos inadimplentes ao consumidor pioraram cerca de 20 pontos-base em relação ao trimestre anterior e 50 pontos-base no acumulado do ano. Bancos com carteiras mais concentradas ou maior exposição a consumidores de menor renda apresentaram deterioração mais significativa. (Money Times)

Apesar dos sinais de alerta, a avaliação não é de uma crise de solvência dos principais bancos brasileiros. As grandes instituições continuam apresentando níveis elevados de rentabilidade e capital. A preocupação está principalmente na possibilidade de o ambiente de crédito permanecer desfavorável e exigir provisões maiores nos próximos trimestres.

O que isso significa para os investidores?

Para quem acompanha ações de bancos na Bolsa, o crescimento das provisões merece atenção porque esses recursos afetam diretamente os resultados das instituições. Caso a inadimplência continue avançando, os bancos poderão precisar ampliar ainda mais suas reservas, pressionando os lucros futuros.

Por outro lado, uma provisão maior também significa que as instituições estão se antecipando aos riscos. O desempenho de ITUB4, BBDC4, SANB11, BBAS3 e BPAC11 dependerá não apenas do crescimento dos lucros, mas também da evolução da inadimplência, do custo do risco e da capacidade dos bancos de continuar expandindo suas carteiras sem comprometer a qualidade dos ativos.

O segundo trimestre de 2026, portanto, deixou uma mensagem dupla para o mercado: os grandes bancos brasileiros continuam altamente lucrativos, mas os R$ 47 bilhões reservados contra possíveis calotes mostram que as instituições estão se preparando para atravessar um período mais difícil para o crédito. (Money Times)

Fontes

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