Fundos multimercado mudam estratégia para recuperar espaço diante da renda fixa

Por Samuel Bramwick 9 Min de leitura

XP Asset reduz taxa de administração, aumenta parcela ligada à performance e muda forma de assumir riscos após três anos difíceis para a categoria.

Os fundos multimercado estão tentando se adaptar a um cenário no qual simplesmente permanecer posicionado por longos períodos deixou de ser suficiente para atrair o investidor. Depois de três anos considerados difíceis para a categoria, gestoras começam a rever estratégias, estruturas de risco e até a maneira como cobram seus clientes. Uma das mudanças mais recentes vem da XP Asset, que decidiu alterar significativamente a gestão de seus multimercados macro. (Seu Dinheiro)

Segundo Bruno Marques, gestor de multimercado macro da XP Asset, a nova estratégia procura aproveitar movimentos mais curtos do mercado e permanecer sem posições relevantes quando não houver uma relação considerada favorável entre risco e retorno. Na prática, a gestora pretende reduzir a obrigação de manter apostas constantemente e concentrar recursos em oportunidades nas quais enxergue maior assimetria. (Seu Dinheiro)

A decisão ocorre em um ambiente bastante diferente daquele que ajudou a popularizar os multimercados no Brasil. Juros elevados tornaram produtos de renda fixa novamente muito competitivos, enquanto mudanças tributárias nos fundos exclusivos e o crescimento dos investimentos isentos ampliaram as alternativas disponíveis. Ao mesmo tempo, parte dos multimercados entregou resultados abaixo das expectativas, pressionando a captação da categoria. (Seu Dinheiro)

Os dados mais recentes ajudam a dimensionar essa concorrência. A indústria brasileira de fundos registrou entrada líquida de R$ 33,9 bilhões em agosto, segundo a Anbima. Somente os fundos de renda fixa receberam R$ 47,2 bilhões líquidos no mês, revertendo a saída de R$ 17,6 bilhões registrada em julho. No acumulado de 2026, a indústria de fundos apresenta captação positiva de R$ 261 bilhões. (ANBIMA)

Por que os multimercados perderam espaço para a renda fixa?

A principal vantagem dos multimercados sempre foi a liberdade. Dependendo do regulamento, o gestor pode distribuir recursos entre juros, moedas, Bolsa e outros ativos, além de utilizar derivativos para proteção ou implementação das estratégias. Isso permite tentar encontrar oportunidades em diferentes ambientes econômicos, em vez de depender exclusivamente da valorização de uma única classe de ativos.

Essa flexibilidade, entretanto, precisa justificar os riscos e custos envolvidos. Com os juros brasileiros permanecendo em patamares elevados, aplicações de renda fixa passaram a oferecer retornos competitivos sem exigir do investidor a mesma exposição às oscilações encontradas em determinadas estratégias multimercado. Para muitos cotistas, essa diferença alterou a relação entre risco e retorno percebida nos últimos anos.

A Anbima mostrou recentemente a dimensão dessa preferência. Dos R$ 33,9 bilhões que entraram líquidos na indústria de fundos em agosto, a renda fixa recebeu R$ 47,2 bilhões. Dentro dessa categoria, os fundos de duração livre e crédito livre tiveram entrada de R$ 14,9 bilhões. A associação atribui parte desse movimento à busca por previsibilidade em um cenário de juros ainda elevados e maior volatilidade dos mercados. (ANBIMA)

A XP Asset também identifica fatores estruturais por trás da perda de espaço dos multimercados. Segundo Bruno Marques, a mudança na tributação dos fundos exclusivos, o aumento da oferta de produtos isentos e a própria performance insatisfatória de parte da indústria contribuíram para os resgates. Na avaliação apresentada pelo gestor, uma eventual redução dos juros não será suficiente, por si só, para fazer os investidores retornarem à categoria: os fundos precisarão novamente demonstrar consistência nos resultados. (Seu Dinheiro)

O que a XP Asset está mudando nos seus fundos?

Uma das alterações centrais é a forma de assumir posições. A XP avalia que os mercados ficaram mais rápidos e voláteis, reduzindo a duração de determinadas tendências. Em vez de encontrar uma tese, montar uma posição e aguardar durante um período prolongado, a estratégia passa a buscar movimentos mais curtos e reduzir rapidamente a exposição depois que determinada oportunidade é capturada. (Seu Dinheiro)

A gestora também está reforçando as equipes dedicadas ao mercado de juros no Brasil e na América Latina, além das áreas de economia e inteligência artificial. O objetivo é ampliar a capacidade de analisar diferentes cenários e encontrar oportunidades principalmente nos mercados de juros e derivativos, que ganharam importância dentro da nova estrutura de gestão. (Seu Dinheiro)

Outra mudança envolve os testes de estresse. Tradicionalmente utilizados para calcular como uma carteira poderia reagir a situações extremas, esses mecanismos passaram a fazer parte de maneira mais direta do processo de tomada de decisão. A gestora procura avaliar antecipadamente como determinadas posições poderiam se comportar caso vários participantes do mercado tentassem reduzir suas exposições simultaneamente. (Seu Dinheiro)

Essa preocupação está relacionada ao crescimento internacional dos chamados fundos multi-strategy. Segundo os números apresentados por Marques, esse segmento passou de aproximadamente US$ 90 bilhões em 2019 para mais de US$ 1 trilhão atualmente. Grandes fundos podem manter posições semelhantes e, diante de um movimento contrário, reduzir exposição simultaneamente. Esse fenômeno, conhecido como degrossing, pode ampliar rapidamente as oscilações dos preços e tornar mais difícil manter posições por períodos prolongados. (Seu Dinheiro)

Taxas também mudam e investidor precisa observar custos e riscos

A transformação chegou também à estrutura de cobrança. Segundo a XP Asset, o fundo que anteriormente utilizava o modelo conhecido como “2 com 20” — 2% de taxa de administração e 20% de performance — passou para 1% de administração e 30% sobre o que superar o benchmark. A alteração reduz a parcela fixa da remuneração e aumenta o peso do resultado obtido pelo gestor. (Seu Dinheiro)

A justificativa apresentada pela gestora está relacionada à própria estratégia de permanecer mais tempo sem posições quando não houver oportunidades consideradas suficientemente atrativas. Nesse modelo, a XP entende que uma taxa fixa de administração menor se adapta melhor à proposta, enquanto a parcela variável aumenta quando o fundo consegue superar sua referência. (Seu Dinheiro)

Para o investidor, entretanto, a mudança exige atenção. Uma taxa de administração menor não significa necessariamente que o custo total será inferior em todos os cenários. Se o fundo superar significativamente o benchmark, a taxa de performance maior pode aumentar a remuneração paga à gestora. A avaliação deve considerar simultaneamente histórico de desempenho, volatilidade, estratégia, liquidez, benchmark e todas as taxas previstas no regulamento.

O momento também indica uma transformação mais ampla da indústria. Bruno Marques avalia que o setor passa por consolidação e que gestoras menores podem enfrentar dificuldades diante da combinação de desempenho fraco e resgates. Uma visão semelhante foi apresentada no início de setembro por Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, que também apontou a possibilidade de uma nova rodada de consolidação entre gestores de multimercados. (Seu Dinheiro)

Os números da Anbima deixam claro o tamanho do desafio: enquanto os multimercados procuram reconstruir sua atratividade, a renda fixa continua recebendo dezenas de bilhões de reais em novos recursos. Isso não determina qual classe apresentará melhor desempenho daqui para frente, mas explica por que gestoras estão alterando suas estratégias. Para recuperar espaço nas carteiras, os multimercados terão de mostrar ao investidor que sua flexibilidade consegue novamente entregar uma relação entre risco, retorno e custos que justifique sair da segurança relativa proporcionada pelos juros ainda elevados.

Fontes: Seu Dinheiro — XP Asset muda estratégia dos fundos multimercado · ANBIMA — fundos recebem R$ 33,9 bilhões em agosto, puxados pela renda fixa · Seu Dinheiro — CEO da Bradesco Asset analisa consolidação dos multimercados · ANBIMA — dados e informações da indústria de fundos

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