Como o hábito de pescar regularmente impacta a paciência, a cognição e o bem-estar emocional do idoso?

Por Diego Velázquez 6 Min de leitura
Yuri Silva Portela

Conforme observa Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, entre os hábitos de lazer com maior potencial terapêutico para o idoso, a pesca ocupa um lugar que combina imobilidade contemplativa com atenção ativa, contato com a natureza com responsabilidade técnica, e solidão produtiva com vínculos sociais construídos ao longo de décadas de encontros às margens de rios, lagos e açudes. Para o idoso que pesca regularmente, essa atividade é muito mais do que passatempo: é uma forma de estimulação cognitiva, emocional e física que a medicina geriátrica raramente reconhece com a seriedade que merece.

A seguir, veja o que acontece com o cérebro, o humor e a saúde do idoso que mantém esse hábito e por que recomendar a pesca é também uma forma de prescrição clínica com base real. 

O que a atenção contemplativa da pesca faz com o cérebro?

Pescar exige um tipo específico de atenção que a neurociência denomina atenção sustentada de baixa intensidade, diferente da atenção focada exigida por tarefas complexas e diferente da ausência de atenção do descanso passivo. Essa atenção contemplativa, em que o idoso mantém consciência do ambiente, da linha, do movimento da água e dos sinais sutis de peixe, enquanto permite que a mente divague livremente, ativa o que pesquisadores denominam rede de modo padrão, circuito cerebral associado à consolidação de memórias, ao processamento emocional e à criatividade.

Como detalha Yuri Silva Portela, estudos sobre os efeitos cognitivos de atividades contemplativas em ambientes naturais demonstram redução de marcadores de estresse, melhora da atenção após períodos de exposição à natureza e aumento da capacidade de concentração em tarefas subsequentes. Na prática, a pesca combina todos esses elementos em uma única atividade que o idoso pratica com prazer genuíno e motivação intrínseca, sem percebê-la como exercício cognitivo estruturado.

Paciência, tolerância à frustração e o que a pesca ensina ao cérebro envelhecido

A pesca é uma das poucas atividades que treina sistematicamente a capacidade de esperar sem ansiedade, de tolerar a incerteza do resultado e de manter o engajamento mesmo quando nada acontece por longos períodos. Essa capacidade, denominada tolerância à frustração, é uma competência emocional que o envelhecimento e o declínio cognitivo frequentemente comprometem, mas que pode ser mantida e fortalecida por práticas que a exercitam de forma regular e natural.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, o idoso que pesca toda semana está treinando sua capacidade de permanecer presente sem ansiedade, de encontrar satisfação no processo independentemente do resultado e de regular suas emoções diante da imprevisibilidade, competências com valor clínico real sobre saúde mental e qualidade de vida que nenhum programa formal de regulação emocional consegue desenvolver com o mesmo grau de adesão espontânea.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Bem-estar emocional e o efeito terapêutico do ambiente aquático

O contato com ambientes aquáticos, rios, lagos, represas e o mar tem efeitos sobre o bem-estar emocional que a psicologia ambiental documenta com crescente consistência. Isso porque a presença da água reduz a ativação do sistema nervoso simpático, produz estados de relaxamento mensuráveis por marcadores fisiológicos e ativa respostas emocionais positivas que pesquisadores associam à exposição a ambientes que os seres humanos evolutivamente associam à segurança e à abundância.

Conforme pontua Yuri Silva Portela, para o idoso do interior brasileiro que cresceu às margens de rios e açudes, a pesca tem ainda uma dimensão de reconexão identitária e afetiva que amplifica seus efeitos sobre o bem-estar. Nesse contexto, retornar ao rio onde pescou na infância, usar técnicas aprendidas com o pai ou o avô e compartilhar esse hábito com filhos e netos são experiências com valor terapêutico específico que a medicina convencional ainda não aprendeu a reconhecer como intervenção de saúde.

Como manter o hábito com segurança na terceira idade?

Pescar na terceira idade requer algumas adaptações que garantem segurança sem eliminar o prazer da atividade. Proteção solar adequada é fundamental, especialmente para idosos que usam diuréticos ou medicamentos fotossensibilizantes. Somado a isso, cadeiras confortáveis com apoio lombar adequado reduzem o risco de dor após horas sentado. Além disso, a hidratação regular, especialmente no calor do Nordeste e do Centro-Oeste, precisa ser planejada ativamente, pois o idoso frequentemente subestima a perda hídrica durante atividades tranquilas ao ar livre.

Yuri Silva Portela nota que o idoso que ainda pesca está fazendo algo pela sua saúde que nenhuma lista de recomendações geriátricas consegue tornar tão naturalmente desejado. O anzol lançado na água com paciência é também uma forma de cuidado que o organismo envelhecido reconhece e agradece de formas que os exames laboratoriais raramente conseguem medir.

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