Marcello José Abbud, diretor de operações da Ecodust Ambiental, ressalta que a distribuição dos serviços de gestão de resíduos sólidos nas cidades brasileiras reproduz, com precisão quase cartográfica, as desigualdades socioeconômicas que caracterizam o território urbano. Afinal, bairros de maior renda contam com coleta regular, frequente e confiável, pontos de entrega voluntária bem distribuídos e infraestrutura de calçadas que facilita o descarte correto. No entanto, as periferias urbanas, onde vive a maior parte da população brasileira de menor renda, recebem serviços menos frequentes, enfrentam maior incidência de descarte irregular e acumulam passivos ambientais que comprometem a qualidade de vida de seus moradores de forma desproporcional.
Saiba neste artigo por que essa desigualdade persiste e o que pode ser feito para revertê-la.
Como a cobertura de coleta se distribui no território urbano?
A cobertura formal de coleta de resíduos nas grandes cidades brasileiras é elevada em termos gerais, mas esconde disparidades significativas quando analisada em escala de bairro. Áreas com infraestrutura viária inadequada, ruas estreitas, becos e vielas sem saída ou localizadas em encostas de difícil acesso para caminhões de coleta convencionais frequentemente ficam à margem das rotas regulares de atendimento. Nesses territórios, a coleta é irregular, com frequência menor do que nas áreas centrais e sujeita a interrupções em períodos de chuva ou de manutenção dos veículos, criando condições de acumulação de resíduos que se repetem de forma cíclica.
Como aponta Marcello José Abbud, a irregularidade da coleta em áreas periféricas cria um ciclo vicioso difícil de quebrar. Quando os moradores percebem que o lixo separado corretamente fica acumulado por dias sem coleta, a motivação para manter a separação diminui progressivamente. O descarte irregular em espaços públicos, encostas e córregos passa a ser percebido, nesse contexto, como alternativa inevitável, não por falta de consciência ambiental, mas pela ausência de um sistema confiável que dê destino adequado ao lixo separado.

Os impactos da desigualdade ambiental sobre a saúde das populações periféricas
A concentração de pontos de descarte irregular e de acumulação de resíduos nas periferias urbanas tem impactos sanitários diretos e mensuráveis sobre as populações que habitam esses territórios. De fato, a incidência de doenças transmitidas por vetores que se proliferam em pontos de acumulação de lixo, como dengue, leptospirose e febre tifoide, é consistentemente maior nas áreas periféricas com menor cobertura e qualidade de serviços de coleta de resíduos. Essa correlação, documentada em estudos epidemiológicos realizados em diferentes cidades brasileiras, evidencia que a desigualdade na gestão de resíduos é também uma desigualdade em saúde pública.
Dentre o que observa Marcello José Abbud, diretor de operações da Ecodust Ambiental, tratar a universalização dos serviços de coleta de resíduos como prioridade de saúde pública, e não apenas como questão de infraestrutura urbana, muda a lógica de alocação de recursos e de priorização de investimentos. Quando os custos de saúde associados à ausência de coleta adequada são contabilizados junto com os custos diretos de implantação e operação dos serviços, o argumento econômico para a universalização se torna irrefutável em qualquer análise de custo-benefício minimamente abrangente.
Caminhos para reduzir a desigualdade na gestão de resíduos urbanos
Superar a desigualdade na cobertura de serviços de resíduos nas cidades brasileiras exige soluções que reconheçam as especificidades territoriais das áreas periféricas e que adaptem os modelos de coleta às condições reais de cada território. Veículos menores adaptados a ruas estreitas, garis comunitários contratados entre os próprios moradores das comunidades atendidas e pontos de entrega voluntária instalados em locais de alta circulação dentro das favelas e assentamentos são exemplos de adaptações que já demonstraram viabilidade em diferentes contextos brasileiros.
No fim, Marcello José Abbud elucida que a participação das comunidades periféricas no diagnóstico e no planejamento das soluções de gestão de resíduos para seus territórios é um fator determinante para o sucesso dessas iniciativas. Soluções desenvolvidas externamente e implementadas sem diálogo com os moradores tendem a não se adequar às rotinas e às condições locais, sendo rapidamente abandonadas. A combinação entre infraestrutura adaptada, engajamento comunitário e regularidade do serviço é o que transforma a gestão de resíduos em uma política verdadeiramente universal nas cidades brasileiras.
