Pérsio Arida critica direcionamento econômico do início do governo Lula

By Katy Müller 5 Min Read

Em entrevista ao Valor Econômico, economista diz estar preocupado com retrocessos em reformas e críticas ao presidente do BC

O economista Pérsio Arida disse estar preocupado com o direcionamento econômico do governo neste início de mandato do presidente Luiz Inacio Lula da Silva. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, ele criticou, por exemplo, a revisão do marco do saneamento básico, a intenção declarada de alterar o regime de metas de inflação, os ataques ao presidente do Banco Central e a volta da política de subsídios do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), evidenciada ontem com o anúncio do pacote de estímulos para a indústria automotiva.

Ele também citou falhas recentes no posicionamento na política externa, após Lula ter feito elogios públicos ao ditador venezuelano Nicolás Maduro e também colocou na lista o risco de retrocessos na pauta ambiental.

Arida afirmou que essas críticas não mudam sua avaliação sobre o apoio pessoal dado a Lula nas eleições contra a reeleição de Jair Bolsonaro, que foi motivado mais pela defesa da democracia, dos direitos humanos e da agenda ambiental do que pela economia.

“Mas esse começo de governo é uma sequência de iniciativas e ideias que vão na contramão do que o Brasil precisa: a revisão do marco do saneamento, a revisão dos critérios de voto da Eletrobras, os ataques ao Banco Central, os questionamentos sobre a lei das estatais, a volta de subsídios no BNDES, ideias como criar uma indústria de semiprocessadores no Brasil ou restaurar a indústria naval, o subsídio ao carro popular, retrocessos na agenda ambiental”, queixou-se na entrevista.

Ele também alerta para o risco de credibilidade do regime de metas de inflação caso seja feita uma mudança, como elevar a taxa, atualmente em 3%. O economista diz que mesmo uma alteração no sentido de adotar um horizonte mais dilatado, diferente do ano calendário pode ser arriscado. “Não estamos num debate acadêmico: no Brasil de hoje, é melhor não fazer nada, não mexer na meta nem no ano calendário”, disse.

O Brasil, lembra ele, é um país onde a memória inflacionária é muito alta e a história mostra que o desvio da inflação em relação à meta costuma ser para mais, não para menos.

Sobre as críticas que Roberto Campos Neto tem recebido por parte do governo, Arida afirma que elas só criam mais turbulência nos mercados e não ajudam a derrubar a inflação. “Tecnicamente, pode se fazer a discussão se deve subir ou baixar, se o Banco Central errou. É discussão técnica, não política”, ponderou.

A respeito do retorno dos subsídios pelo BNDES, ele classificou como errada a noção de expandir financiamento com subsídios. “Tenho sempre um receio de você começar fazendo um pouco de subsídios numa área e expande para outras”, alerta.

Ele disse defender a o apoio à inovação, usado como justificativa pelo governo no anúncio de ontem, mas sugere como alternativa baixar tarifas para poder importar máquinas e equipamentos mais produtivos.

Arida disse ao jornal que o novo arcabouço fiscal tem como positiva a sinalização de uma preocupação do PT com a estabilidade da dívida pública a médio prazo, mas fez a ressalva que existe um incentivo para aumentar a receita para gastar mais.

“O Brasil já tem uma carga fiscal muito elevada. Eu preferiria uma regra mais simples e abrangente: a soma de todos os gastos primários, incluindo transferências constitucionais, teria que permanecer constantes em termos reais por alguns anos”, disse.

Para ele, a estabilidade dos gastos em termos reais seria a melhor solução porque colocaria sobre o governo a preocupação de diminuir despesas obrigatórias e reavaliar as políticas de gasto.

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