Corrida eleitoral e rombo fiscal: o que pode afetar o investidor em 2026

Por Diego Velázquez 7 Min de leitura

 Empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro e piora nas contas públicas movimentam as expectativas do mercado financeiro.

Faltando poucos meses para o primeiro turno das eleições presidenciais, dois temas têm ocupado o radar de quem acompanha o mercado financeiro: o resultado das pesquisas eleitorais e a trajetória das contas públicas. Uma pesquisa da Futura Inteligência em parceria com a Apex, divulgada nesta terça-feira, mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tecnicamente empatado com o senador Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno. No mesmo período, dados oficiais mostram que o déficit primário do governo central segue se acumulando em 2026, num ritmo bem acima do observado no ano passado. Entender como esses dois fatores se conectam ajuda o investidor a interpretar oscilações no dólar, nos juros futuros e na bolsa que não têm relação direta com balanços de empresas.

O que mostram as pesquisas eleitorais

 

Segundo a pesquisa da Futura Inteligência em parceria com a Apex, registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o código BR-07294/2026, Lula aparece com 46,3% das intenções de voto num eventual segundo turno, contra 46,1% do senador Flávio Bolsonaro, diferença dentro da margem de erro de 2,2 pontos percentuais. O levantamento ouviu 2 mil eleitores por telefone entre os dias 7 e 11 de julho, com 95% de nível de confiança.

O mesmo instituto mostra Lula também empatado, dentro da margem de erro, numa simulação contra a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, com 46,1% contra 44,3%. Em relação à avaliação do governo, o presidente é aprovado por 46% dos eleitores e desaprovado por 49,7%, cerca de três meses antes do primeiro turno. A aprovação varia por região e por gênero, sendo maior entre mulheres e nas regiões Nordeste e Norte, e menor entre homens e nas regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste.

Pesquisas eleitorais não movem o mercado da mesma forma que um dado de inflação, mas ajudam a moldar a percepção de risco político, um dos componentes que compõem o prêmio de risco embutido no dólar e nos juros futuros negociados na B3. Um cenário eleitoral mais indefinido tende a aumentar a volatilidade de ativos brasileiros, à medida que investidores tentam precificar diferentes caminhos para a política econômica a partir de 2027.

A piora nas contas públicas

 

Enquanto o cenário eleitoral segue indefinido, as contas públicas mostram deterioração ao longo do primeiro semestre. Segundo estimativa da Carta de Conjuntura do IPEA, divulgada em 13 de julho, o governo central registrou déficit primário de R$ 49 bilhões em junho de 2026, com a receita líquida somando R$ 193,6 bilhões no mês, alta real de 9,4% na comparação com junho de 2025, e a despesa total somando R$ 242,6 bilhões, alta real de 8,6% no mesmo período.

No acumulado de janeiro a junho, o resultado ficou deficitário em R$ 92,3 bilhões, ante um déficit de apenas R$ 9,8 bilhões no mesmo intervalo de 2025. O salto mostra que o esforço fiscal deste ano está exigindo mais do governo do que no anterior, mesmo com a arrecadação em alta, porque as despesas também cresceram em ritmo elevado.

O relatório Prisma Fiscal de julho, do Ministério da Fazenda, mostrou melhora na expectativa do mercado para o resultado do ano todo: a mediana das projeções para o déficit primário em 2026 caiu de R$ 59,016 bilhões em junho para R$ 58,077 bilhões em julho, enquanto a estimativa para 2027 recuou para R$ 53,878 bilhões. A meta oficial para este ano continua sendo um superávit de 0,25% do Produto Interno Bruto, com margem de tolerância de 0,25 ponto percentual, o que na prática permite ao governo fechar o ano perto de zero sem descumprir a regra fiscal.

Por que isso interessa a quem investe

 

O comportamento das contas públicas e o resultado das eleições estão entre os fatores que compõem o risco fiscal e político do Brasil, acompanhado de perto por agências de classificação de risco e por gestores de fundos que decidem quanto capital alocar em ativos brasileiros. Um déficit maior do que o esperado tende a pressionar os juros futuros para cima, encarecendo o custo da dívida pública e, por consequência, do crédito para empresas e famílias.

Já um cenário eleitoral mais equilibrado, como o retratado pela pesquisa desta semana, tende a manter o mercado em compasso de espera, sem movimentos bruscos até que fique mais clara a direção da política econômica a partir do próximo mandato presidencial. Esse tipo de espera costuma se refletir tanto no câmbio quanto na atratividade de títulos públicos e privados de prazos mais longos.

Para o investidor, acompanhar tanto o Prisma Fiscal, divulgado mensalmente pelo Ministério da Fazenda, quanto as pesquisas eleitorais registradas no Tribunal Superior Eleitoral, é uma forma de antecipar mudanças de humor do mercado que não aparecem diretamente nos balanços das empresas listadas na B3.

O quadro atual mostra um Brasil que caminha para as eleições de 2026 com uma disputa presidencial ainda indefinida e um déficit fiscal que voltou a crescer no primeiro semestre, mesmo com a arrecadação em alta. Nenhum dos dois fatores garante, isoladamente, uma direção específica para o dólar, os juros ou a bolsa, mas juntos ajudam a explicar por que o mercado financeiro tende a operar com mais cautela em períodos como este. Acompanhar os próximos boletins do Prisma Fiscal e as pesquisas eleitorais que forem divulgadas nas próximas semanas é uma forma prática de entender o contexto por trás das oscilações diárias dos ativos brasileiros.

Fontes: https://www.infomoney.com.br/mercados/ibovespa-hoje-bolsa-de-valores-ao-vivo-14072026/ | https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/category/financas-publicas/

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