Ibovespa supera 177 mil pontos com alívio trazido pela inflação nos EUA

Por Diego Velázquez 7 Min de leitura

Recuperação das ações da Vale e dado de inflação americana mais fraco que o esperado sustentaram a alta da bolsa brasileira nesta terça-feira.

Quem acompanha o noticiário econômico nos últimos dias provavelmente já se perguntou por que a bolsa brasileira consegue subir mesmo em meio a tensões no Oriente Médio, ameaças de sobretaxas americanas e saída de recursos estrangeiros. A resposta está numa combinação de fatores externos e internos que se equilibraram nesta terça-feira, 14 de julho. O Ibovespa fechou em alta, ultrapassando a marca dos 177 mil pontos, impulsionado pela recuperação das ações da Vale e por um dado de inflação ao consumidor nos Estados Unidos que veio abaixo do esperado. O resultado contrasta com o começo do mês, quando o índice chegou a recuar diante da cautela do mercado. Entender os motivos por trás dessa oscilação ajuda o investidor a separar o movimento pontual do que pode indicar uma tendência mais duradoura.

Por que o Ibovespa subiu nesta terça-feira

O Ibovespa fechou o pregão de terça-feira com alta de 0,51%, superando os 177 mil pontos, com ganhos concentrados nos setores de consumo e imobiliário, além da retomada da Vale, que vinha pressionada nas sessões anteriores. Esse tipo de recuperação costuma acontecer quando papéis considerados baratos atraem compradores após quedas seguidas, mesmo sem uma mudança grande no cenário. No exterior, o pano de fundo também colaborou para o resultado.

O índice de preços ao consumidor americano caiu 0,4% em junho na comparação mensal, levando a inflação anual do país a 3,5%, abaixo da previsão de analistas ouvidos pela Dow Jones, que esperavam recuo menor e taxa em 3,8%. Diante do dado, caiu a probabilidade de o Federal Reserve voltar a subir os juros ainda este ano, segundo a ferramenta FedWatch, da CME. Um Fed mais comedido tende a favorecer ativos de países emergentes, entre eles o Brasil, porque reduz o custo de captação em dólar e abre espaço para o fluxo de capital estrangeiro migrar para bolsas como a brasileira.

O dólar comercial também recuou nesta terça-feira, cotado perto de R$ 5,07, o que ajuda a reduzir a pressão sobre produtos importados e sobre a dívida pública referenciada à moeda americana. A combinação entre dólar mais fraco e juros americanos sob controle formou o ambiente que sustentou a virada da bolsa brasileira depois de um início de mês mais fraco.

O que pesa contra a alta: saída de estrangeiros e tensão comercial

Apesar do resultado positivo, julho ainda não é só de boas notícias para o Ibovespa. O acumulado do mês registra retirada líquida de cerca de R$ 22,2 milhões em recursos de investidores estrangeiros, mesmo após uma única sessão de entrada de R$ 567,6 milhões no início do período. Como os investidores de fora do país respondem por mais da metade do volume financeiro negociado na B3, uma saída consistente de recursos tende a limitar o fôlego das altas.

Parte dessa cautela vem de fora. No começo de julho, o mercado operou sob pressão diante de uma audiência pública em Washington que discutia investigação comercial dos Estados Unidos e a possibilidade de novas sobretaxas sobre produtos brasileiros. Esse tipo de incerteza costuma pesar mais sobre ações ligadas à exportação, caso de mineradoras e produtoras de commodities, justamente o grupo que voltou a se recuperar nesta terça-feira.

Outro fator de atenção é o petróleo. Os preços do combustível aceleraram a alta na primeira semana de julho depois de um terceiro navio ter sido atingido por projétil no Estreito de Ormuz, segundo informou o exército britânico. A rota concentra parte relevante do transporte marítimo de petróleo do mundo, e qualquer sinal de escalada na região tende a repercutir tanto no preço do combustível quanto nas ações de empresas do setor listadas na bolsa brasileira, caso da Petrobras.

O que observar daqui para frente

Para quem acompanha o mercado com o objetivo de investir, o desempenho de uma única sessão não deve ser lido como sinal definitivo de tendência. A alta desta terça-feira reuniu fatores pontuais, como o dado de inflação americana e a recuperação técnica da Vale, com fatores mais estruturais, como o fluxo de capital estrangeiro e o rumo das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

A Petrobras segue como a ação mais indicada nas carteiras de dividendos consultadas para julho, reunindo dez recomendações entre catorze instituições financeiras pesquisadas, à frente de Vale e Allos. Esse tipo de preferência mostra que, mesmo com a volatilidade de curto prazo, parte do mercado continua olhando para empresas pagadoras de proventos como forma de atravessar um cenário de juros altos e incerteza externa.

De qualquer forma, quem acompanha o Ibovespa no dia a dia faz bem em observar não apenas a pontuação do índice, mas o comportamento do dólar, os desdobramentos da tensão no Oriente Médio e o ritmo da entrada ou saída de recursos estrangeiros, sinais que costumam antecipar movimentos mais duradouros do que uma alta ou queda isolada.

A sessão de terça-feira reforça um padrão que tem marcado o mercado brasileiro neste momento: a bolsa reage rápido tanto a boas quanto a más notícias, e o resultado final depende do equilíbrio entre fatores internos, como o fôlego de setores específicos, e externos, como a política monetária americana e as tensões geopolíticas. Para quem pretende investir em renda variável, entender esse contexto é mais útil do que tentar acertar a direção de curto prazo do índice. Acompanhar os próximos dados de inflação nos Estados Unidos, o desenrolar da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos e a evolução do conflito no Oriente Médio ajuda a formar uma visão mais completa sobre o que pode vir pela frente na B3.

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